Uma forte chuva assolava a paredes da Mansão Kensington, produzindo uma cacofonia ensurdecedora dentro da antiga construção. Em pouco instantes, a queda d’água se transformara em um singela tempestade, servindo como agouro de acontecimentos sombrios que estariam para ocorrer.
O nosso grupo de Caçadores se encontrava prostado, no cume da escadaria central da casa, logo após absorver a terrível revelação que os retratos pendurados guardavam. Em sua frente, dominando o acesso para o piso superior, estava a tal figura lúgubre trajando negras roupas que mais parecia com trapos esvoaçantes. A única característica discernível em seu semblante era, em meio à pesada escuridão, o par pavoroso de olhos radiantes e avermelhados.
Sem que houvesse qualquer tempo hábil para reação, o ser profano gesticula fortemente com ambos os lânguidos braços, como se agarrasse com as mãos a própria obscuridade do ambiente, em um movimento semicircular e amplo que culmina com uma lufada fétida de moscas, de diversos tamanhos, atingindo todo o grupo que, em meio a ataques de insetos e ao golpe nauseabundo de ar, rola escada abaixo. Alguns homens se seguram como podem no balaústre, outros só param quando atingem o chão do andar inferior.
Após a escaramuça, o grupo se reúne e ascende a escadaria, apenas para se deparar com um corredor vazio em em ruínas. Uma rápida procura pelos cômodos adjacentes revela uma área iluminada ao final do mesmo corredor, o que aparenta ser um grande quarto equipado com um tipo de sacada ou balcão, cuja imponente janela envidraçada encontrava-se aberta exibindo a noite tempestuosa no lado de fora. Mesmo em meio às trovoadas e afins, o grupo pode distinguir o som característico de um carro dando a partida.
Ao se aproximarem da sacada, as luzes de um veículo puderam ser avistadas. O mesmo estava estacionado ao fundo da mansão e, de forma apressada e perigosa, segue o caminho da estrada principal. Para a surpresa dos nossos Caçadores, outro veículo dá a partida e sai em perseguição ao primeiro.
Agora, cada segundo que se passava era preciso. Uma parte do grupo foi, às pressas, até a frente da residência para apanhar o Ford T que eles haviam chegado. Neste interim, o restante dos Caçadores inspecionava rapidamente o cômodo. Tratava-se um imenso quarto, que deveria ser belo e luxuoso em seu auge. Hoje só possuía um desgastado papel de parede, uma grande cama, em estado deplorável, ainda equipada com um puído lençol de seda azul, e algumas mesas, também em semelhante situação de conservação.

Contudo. o que mais chamou foi que o cômodo estava sendo utilizado para alguma espécie de pesquisa oculta: velas, tanto para fornecer iluminação para leitura quanto para fins ritualísticos, estavam espalhadas pelo chão e móveis. aparadores para posicionamento de livros e objetos para escrita também puderam ser encontrados, assim como anotação e símbolos diversos rabiscados com giz no chão de madeira. Toda a cena foi desarmada por alguém, também com muita pressa. Escrituras apagadas, velas derrubadas e similares.
Em poucos minutos, sob a intensa tempestade que caía, uma perseguição se forma na estrada. Na dianteira, um pequeno Fiat Typo conduzido pela pessoa fugitiva que estava na Mansão. Logo atrás, um Chevrolet AA e, fechando a coluna e mais distante, o Ford A de nossos Caçadores. Enquanto a chuva ficava maias forte, o contato visual com os dois primeiros carros fora perdido, entretanto, logo após alguns minutos, o grupo visualiza os outros veículos parados no acostamento, próximos a uma cerca baixa de arame, já derrubada em vários pontos. Os faróis do Fiat estavam ainda ligados, iluminando um pequeno morro adiante. Certamente, era este o destino dos passageiros da estranha coluna de veículos.
Antes de seguir os passos dos outros noite adentro, os Caçadores fazem uma rápida busca nos dois veículos ali parados. A documentação do Fiat estava sob o nome de Emilia Court, e uma caixa com diversos livros e outros pertences foi encontrada em seu interior. Já a busca no Chevrolet não revelou maiores detalhes.
Em meio a torrencial tempestade, o grupo reúne a coragem necessária e segue pelo caminho iluminado pelos faróis, chegando assim, após algumas dezenas de metros, a uma entrada escavada na base do morro, cuja porta de madeira jazia entreaberta e revelava um corredor soturno, muito semelhante às construções utilizadas em mineração. As lanternas elétricas singravam a densa escuridão, projetando fachos de luz amarelada sobre um piso em declive e pavimentado por pequenas pedras, coberto por um teto baixo o qual estava úmido e gotejante, como resultado do dilúvio desta infeliz noite. Logo à frente, o corredor desembocava em uma antessala, um pouco maior e também mais alta. Um olhar mais adiante trouxe a informação que o corredor ainda continuava logo à frente.
Nesta abafada alcova haviam algumas placas de sinalização, já bastante desgastadas pelo tempo. Na maior delas, podia ser lido:
<aside> 💀 `POÇO DE PESTE DE VINEGAR ALLEY, WALTHAMSTOW
Nomeado em homenagem às enormes quantidades de vinagre que foram usadas ao redor do poço da peste na tentativa de conter a propagação da doença em 1665.`
</aside>
Entre outras sinalizações e informações referente ao local visitado também jazia no chão um corpo masculino, envolto em um pesado sobretudo molhado, de cor marrom-escura. Tratava-se do cadáver de um conhecido do grupo, o mais jovem dos Gangsters que, dias antes, estavam seguindo e interrogando alguns membros do Grupo. A pela do rosto e das mãos do rapaz estavam cobertas de manchas de aspecto rosado que, após uma exame mais detalhado, revelaram-se serem imensas pústulas, habitadas por dezenas de larvas de insetos. As mucosas dos lábios e olhos estavam repletas de ovos de moscas, que eclodiam em velocidade vertiginosa, gerando cada vez mais larvas que se alimentavam incessantemente da carne do recém falecido. Uma cena grotesca de uma morte obviamente não natural.
Continuando adiante na única passagem disponível, o túnel escuro em declive seguia inexorável, como um projetil singrando a carne de seu alvo. Após pouco metros, um urro de pavor pode ser ouvido, reverberando através das úmidas paredes. Ao longe, percebia-se passos apressados, colidindo contra um chão já tomado pela água da chuva que começara a se acumular nas partes mais baixas. De forma desesperada, um vulto surge no alcance das lanternas dos Caçadores. Um homem, correndo de forma estabanada e insana com as mãos cobrindo o rosto e gritando: “-Tire isso de mim! Tire isso sua vagabunda!”. O homem em fuga passa pelo grupo sem dar a mínima atenção e desaparece nas trevas logo depois.
Retomando os passos de forma relutante, os Caçadores avançam no túnel, até que os seus ouvidos recebem sons irreconhecíveis, como se fossem fragmentos de uma conversa ao longe.
Adiante a passagem chegava a uma outra sala, desta vez aparentemente maior do que a anterior e tomada por uma iluminação natural avermelhada. Neste cômodo podia ser vista, de forma parcial, uma plataforma de pedra, comumente vista em bordas de poços. Provavelmente eles haviam chegado ao O Poço de Peste local.
O avanço vacilante do bando é totalmente paralisado quando uma sombra em movimento é avistada, contrastando contra as paredes iluminadas da câmara. Tratava-se de um vulto feminino, que vociferava para algo dentro do poço: “-Irmã! Apareça! Saia desse seu estado de lamúria e venha comigo! Buscaremos vingança a quem fez isso com todas nós!”. Logo após o monólogo, uma cacofonia de brados e gritos do além povoou o ambiente, ecoando de forma doentia pela corredor obscuro. A figura feminina começa a entoar uma frase, já ouvida anteriormente pelos Caçadores:
<aside> 💀 “Ó amigo e companheiro da noite, tu que exultas com o ladrar dos cães (nesse instante irrompeu um uivo medonho) e o sangue derramado (aqui sons indizíveis rivalizaram com guinchos mórbidos), que vagas em meio às sombras das tumbas (então ouviu-se um suspiro sibilante) e desejas ardentemente o sangue, levando o terror aos mortais (gritos curtos e nítidos de uma miríade de gargantas), Gorgo (repetido como resposta), Mormo (repetido com êxtase), lua de mil faces (suspiros e notas de flautas), olha com carinho os nossos sacrifícios!”
</aside>
Este momento de insanidade marcou a debandada em pânico do grupo de Caçadores. O Sr. David Cooper ainda esboçou alguma reação e sacou o seu revolver para desferir um disparo certeiro na figura feminina, que agora podia ser reconhecida como Emilia Court, em trajes negros e deploráveis. Tal disparo acertou a moça bem no meio das costas, produzindo um grito de dor característico. Entretanto, através de olhos incrédulos e entorpecidos de pavor, o atirador visualizou uma última coisa antes da fuga ensandecida pelo corredor que, neste momento, já armazenava água pluvial na altura dos joelhos. O que o Sr. Cooper viu foi a total ausência de sangue na ferida que ele causou em Emilia. Ao invés do líquido vital, dezenas de moscas voaram do ferimento e começaram a depositar uma espécie de secreção purulenta sobre o dano, fazendo com que o mesmo fosse curado em um piscar de olhos.
Com o nível da água subindo cada vez mais depressa, era questão de tempo para que a passagem subterrânea se torna-se inacessível. Para acelerar o processo o Sr. Carter ficou para trás, usando alguns disparos de um revólver para colapsar o teto baixo do corredor, na esperança de selar a passagem, isolando o maldito poço de peste e seus habitantes funestos.
O grupo é recebido pela bem-vinda chuva noturna, quando os resquícios de energia são consumidos para dirigir e chegar em paz até Londres, para desfrutarem de uma péssima noite de sono.
O raio do sol trás a vã esperança de que tudo tenha sido apenas um pesadelo vívido, mas as escoriações e a caixa com livros e anotações de Emilia põe um fim sólido a essa teoria acalentadora. Notícias sobre os deslizamentos de terra causados pela forte chuva na noite anterior também chegam ao conhecimento do grupo da Chapelhill Books, trazendo um pouco de alívio a alguns pesados corações. Afinal, haviam se livrado da presença maligna da mulher em carmesim.
Contudo, qual seria o plano de Emilia? Quais segredos lúgubres esta caixa de livros guarda?
Estas e outras perguntas serão respondidas em uma outra oportunidade…
FINALE
CENA PÓS-FINALE:
Abalado física e mentalmente pelos ocorridos dos últimos dias, o Sr. Cooper busca alívio no colo de sua amada. Após um breve cochilo, o mesmo vai até o banheiro pois havia sentido um certo incômodo no olho direito. Ao observar seu rosto no espelho redondo, o nosso Caçador percebe que o globo ocular em questão está profundamente alterado e avermelhado. Uma breve inspeção nas pálpebras revela um pequeno ferimento na parte inferior. Uma pústula, a qual após uma leve pressão, expulsa uma larva de mosca, já em avançado estado de evolução. Com o rosto inchado e manchado de sangue, Cooper sai do banheiro adentrando no quarto, dizendo para a sua companheira: “-Amor, creio que tenho que ir para o hospital!”. A mulher, vestida com uma bela camisola branca, estava sentada, de costas, na beira da cama. Ela vira somente a cabeça, lentamente, buscando olhar o Sr. Cooper de soslaio. Ela diz, bem lentamente, com um sorriso sádico no rosto: “-Só por causa de um pouco de sangue? Sangue é carmesim!”.