A leve chuva noturna, que antes açoitava graciosamente as janelas da Chapelhill Books, agora se transformara em uma tempestade aguda, com fortes lufadas de vento. O brilho fulgurante de um relâmpago golpeia a escuridão, fazendo com que os semblantes dos presentes no sujo cômodo parecessem pálidos como bonecos de cerâmica. Exceto um deles. Um intruso. Uma coisa espectral, anômala a este plano de existência.

A aparição, de cor carmesim como sangue fresco, se movimenta em direção aos Caçadores, de maneira silenciosa, lenta e sinistra, tal como fosse uma animação presa em uma película de filme com avanço quadro-a-quadro.

De repente, sem permitir quaisquer reações evasivas por parte dos observadores, o ser, novamente imitando uma projeção de cinema, avança em velocidade vertiginosa, buscando a colisão com o grupo de homens que, de forma estabanada, tenta esquivar da investida espectral. Objetivo este que conseguem lograr com êxito parcial.

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Enquanto grande parte dos Caçadores consegue realizar a manobra, o nosso Sr. David Cooper é derrubado no chão empoeirado, levando consigo alguns móveis e livros. Infelizmente, ao cair prostrado de costas no piso, a aparição, antes lenta, posiciona-se acima do Caçador, apertando a sua garganta de maneira firme e ameaçadora. Ao retesar suas mãos cadavéricas sobre a pele inimiga, longas unhas pútridas e imundas com terra, possivelmente oriundas de alguma cova rasa, se adentram na carne do Sr. Cooper, trazendo um pequeno gotejar de sangue, junto com um grito abafado de sua boca, um amálgama demente de espanto e pânico.

Ainda, para completar a cena de horror inimaginável, a aparição emite um urro gutural e grave, como se as palavras fossem pronunciadas por uma garganta já morta há eras passadas. Neste bramido do além-túmulo, as seguintes palavras lúgubres podiam ser compreendidas:

"Por ordem de Hécate! Estou vestido de terror! Eu te faço tremer, eu te faço fugir com medo, eu te expulso! Eu te amaldiçoo, três vezes eu te amaldiçoo, tu és três vezes amaldiçoado!”

Tomados pelo pavor em sua forma mais pura, os Caçadores de Livros ainda em pé fugiram apressados pela porta principal da livraria, sendo recebidos, com alívio, pela fria chuva noturna. Contudo, o Sr. Arthur Lewyn permaneceu no recinto. Talvez por medo paralisante ou por realmente querer ajudar, o acadêmico Caçador ficara o tempo todo, estático, observando a luta impensável ocorrer bem defronte os seus olhos. Porém, em um estalar de dedos, o Sr. Lewyn buscou, nos recônditos mais profundos de sua calejada mente, por um cântico em latim, cujos versos ele lembrara de uma prazerosa leitura em uma tarde de verão, sentado em sua poltrona predileta. Versos estes que foram utilizados, por homens que nasceram, lutaram e morreram muito antes dele nascer. De posse desta lembrança, que surgiu como um raio em sua mente, o Sr. Lewyn cerrou os olhos e avançou, com a mão em riste, mirando os dois seres que lutavam no chão.

Não se sabe ao certo o que ocorreu a seguir mas, após as primeiras estrofes em latim, a aparição desapareceu, da mesma maneira súbita com que havia surgido. A iluminação artificial na sala é restaurada aos poucos, como que se uma sombra ameaçadora tivesse se dissipado ao vento.

Atônitos, os dois Caçadores apanham as páginas avermelhadas que estavam sobre a mesa de estudo e partem, com as pernas ainda trêmulas pela descarga de adrenalina, para a residência do Sr. Cooper. Local este que, muito provavelmente, também foi o destino do restante do grupo.

Ao se reencontrarem na confortável casa, os Caçadores reúnem todas as informações à disposição, tentando assim, de maneira desesperada, conseguir uma explicação para o que está acontecendo e qual o próximo passo a ser dado.

Neste instante eles realizaram, através da troca de olhares cansados em volta à mesa cheia de copos e garrafas meio vazios, que eles haviam cruzado uma linha muito tênue em sua profissão. Acabaram se encontrando com aquele tipo de conhecimento proibido oculto que muitos de seus clientes buscam. Na maioria das vezes, é mais prudente não fazer muitas perguntas e apenas conseguir o livro procurado, pegar o seu pagamento e ir embora. Entretanto, desta vez foi diferente. O conhecimento profano foi de encontro a eles, arrombando portas desta realidade sem pedir permissão. E, infelizmente, quando este tipo de sabedoria toca este lado da existência, não quer retornar para o seu antro asqueroso sem levar algo em troca.

Mais informações são necessárias e, mais do que ninguém, o grupo sabe onde encontrá-las: nas páginas emboloradas de volumes esquecidos em cantos escuros, jazendo sobre estantes cheias de insetos, cobertos por teias ou por ainda mais sinistras coisas. E o local mais óbvio que ainda restava para ser investigado é onde todo esse mistério se originou.

Nesta mesma noite chuvosa, o grupo decide rumar até a decrépita Mansão Kensington. Ainda mais após ler uma notícia no jornal local.

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Continua na próxima postagem…

RELATO | SESSÃO 5: A CASA À MARGEM DO TEMPO