A pesada chuva caía de forma indiferente, não dando trégua nesta noite problemática. Nuvens escuras e espessas passeavam rapidamente pelo céu noturno, obstruindo a tímida luz amarelada fornecida pela pequena lua. De maneira bruxuleante, um outro foco de iluminação irrompe a escuridão úmida. Trata-se do Ford Model A do Sr. Cooper, desafiando os elementos ao trafegar pela sinuosa e traiçoeira estrada vicinal que ligava Londres à região rural.
Em meio às torrentes celestes os débeis faróis do automóvel ajudavam o grupo a discernir uma construção generosa, logo à frente na rodovia. Tratava-se da Mansão Kensington. Outrora, um local de orgulho para a aristocracia. Hoje, o símbolo decadente de uma era passada marcada pela opulência, jogada às traças do esquecimento, assim como muitos dos nobre que lá residiram.

A Mansão Kensington, também conhecida como Black Ebon Hall
O Ford adentra pelo caminho encharcado e estaciona logo ao pé da escada de entrada da residência. Antes de ser desligado, o facho tênue de luz do farol forneceu um vislumbre do que esperava o grupo: uma casa silenciosa e escura, como um mausoléu.
Fugindo a chuva como ratos, os Caçadores logam avançam para a soleira, onde são recebidos por uma outrora bela porta de madeira maciça, toda ornamentada com o brasão da família.
Agarrando as suas lanternas e a coragem, o grupo adentra pela soleira, encontrando-se em um corredor de entrada, cujo piso imundo estava forrado de correspondências não lidas e jornais datados. A chuva potencializou o péssimo estado de conservação do imenso imóvel, fazendo com que goteiras se multiplicassem pelo teto, escorrendo pelas paredes. No escuro, com a débil iluminação artificial do grupo, este fios d’água davam a impressão de paredes tingidas com sangue espesso.

As lanternas singraram a escuridão, revelando que o corredor terminava em uma grande sala. Contudo, de maneira súbita, vozes são ouvidas neste cômodo e, antes que qualquer Caçador pudesse esboçar alguma reação, um homem de meia-idade, trajando um terno um tanto antiquado, avança pela passagem, vociferando de maneira agressiva e intimidadora: “-Eu já disse pra você não pisar aqui novamente! Saia agora! Fora!”. Ao serem interpelados desta forma, alguns Caçadores respondem com frases apaziguadoras, porém que não surtem efeito algum. O homem continua a avança de forma decidida, quando o Sr. Cooper saca a sua pistola do casaco e intima o defensor a cessar a marcha. Enquanto o eco da discussão no corredor reverbera na mansão vazia, o homem colérico se aproxima perigosamente do grupo, apenas para então passar por dentro deles e continuar a gritar, rumo a saída da casa: “-Seu cachorro imundo! Sujou todo o tapete novamente!”, para então desaparecer de maneira abrupta na soleira, como se fosse absorvido pela escuridão.
Recuperando-se do fato insólito, o grupo decide se dividir para realizar as buscas pelo andar térreo da Mansão Kensington.
Um dos cômodos adjacentes ao corredor de entrada era um pequeno quarto de criança, contendo móveis velhos e papel de parede já se soltando. No centro do ambiente havia um pequeno berço, coberto por um lenços encardido. Logo ao adentrar o recinto, Sr. Carter ouviu um choro de bebê e se dirigiu ao desgastado berço. Respirando fundo, o nosso intrépido Caçador puxou, de uma vez e com força, o pútrido lençol que cobria o móvel, que era a fonte do choro infante. Para o seu choque, o berço não alojava uma criança, mas sim um amontoado imenso de vermes, que se movimentavam, se entrelaçavam de forma agoniante e repulsiva.
Logo adiante, uma outra parte do grupo de exploração, se depara com um gato preto, que passa na frente deles e sobe as escadarias principais da mansão. Poderia ser este um animal comum, perdido aqui? Ou outro eco do passado? Para dirimir estas pontuais dúvidas, os Caçadores decidem seguir o felino, rumo ao andar superior da casa.
A jornada pela longa escada é angustiante. Ao direcionar os focos das lanternas para frente, os Caçadores têm a impressão que a escuridão que ficou para trás estaria se deslocando para engolfá-los. A cada passo dado o rangido agudo do piso, velho e danificado pela chuva, acrescenta uma camada de tensão à exploração. Ao longo das paredes existia ainda uma sucessão de retratos, que pareciam encarar, de forma desconfiada, a estranha procissão que se formara na escadaria. Estes retratos eram, na verdade, representações artísticas de todos os nobres da linhagem, em ordem cronológica. Assim, no topo da escadaria era esperado o retrato de Lord Phillip William, o último dos Kensington. Contudo, um outro quadro foi o que chamou a atenção de todos. No meio da galeria, no período que compreendia ao anos por volta de 1750, havia um retrato de uma bela jovem, casada com um também jovem Lord Kensington. E, para espanto geral, a mulher da imagem era, nada mais que Emilia Court, assistente do Prof. Leiter.
Neste exato momento de revelação, o gato preto surge no topo da escada, parecendo observar o que o grupo está fazendo ali parado. Olhos faiscando no escuro. Um forte relâmpago ilumina o céu tempestuoso, fazendo com que os Caçadores sejam brevemente ofuscados. Ao reganharem a visão percebem que, no local onde estava o felino negro, surge uma imagem soturna. Uma mulher trajando vestes negras e um brilho carmesim ao fundo.
Continua na próxima postagem…