3 de Outubro de 1930.
Sob a luz crepuscular de um dia de outono, o intrépido Caçador de Livros, Charles Carter, adentra à portaria principal do famigerado Bethlen Royal Hospital. Em seu bolso, amassado de maneira conveniente, estava o Atestado de Internação encontrado, hoje mais cedo, na residência do Prof. Leiter. Logo após o breve atendimento na recepção da instituição, o nosso protagonista é guiado até a sala de espera, onde depois iria se dirigir até o quarto do jovem cujo nome estava no documento citado: Cecil Hunter, um ex-estudante de Artes da Universidade de Westminster que havia sido expulso do curso há alguns meses.
Ao acessar o imenso corredor que levava até às alas de internação, o homem é recebido pelo cheiro forte de desinfetante, tentando disfarçar o odor acre de urina. Ainda, ao fundo, uma cacofonia de lamúrias e grunhidos dos mentalmente instáveis preenche o ar. Enfim, ele havia deixado o nosso mundo e entrado no reino dos loucos.

Adentrando o lúgubre corredor, o destino encontrava-se a alguns metros após uma curva à esquerda. O quarto #5, cuja porta de metal com um pequeno postigo lutava para abafar os urros que vinham do cômodo. Lá dentro estava o jovem Cecil Hunter, imobilizado por uma camisa de força. Por sorte, ele ainda se encontrava bem comunicativo.
O Depoimento de Cecil Hunter: “O Professor sempre sabe o que faz. Mas este trabalho…diferente né? Complexo. Mas era pelo dinheiro, né? Sempre dinheiro…arte falsa. Nós acabamos vendendo nossas almas, de qualquer maneira. Não era nosso trabalho. Era dela. Da Bruxa. Eram os papéis dela, o julgamento dela, o símbolo dela. Estupidez! Estupidez! Eu posso ouvir ela rindo. E o choro! O choro dos bebês sobre a mesa dela! Você percebe? O que fizemos? Pode ouvir? Batendo pelas paredes, gritando aos ventos? Querendo se libertar. Não foi minha culpa, a geometria estava quebrada, falha, cópia com falha, nas linhas, nos ângulos. Imbecil! Você não percebe? Eu quero sair daqui. Não quero ficar sozinho. O Verme Conquistador!! O Autor os guarda e protege nos cantos!”
Em resposta ao discurso inflamado de Cecil, o ocupante do quarto ao lado também se manifesta, gritando e batendo na parede: “Não adianta berrar e pedir ajuda, meu jovem! Vocês estão condenados!” Ao verificar, durante a saída, quem era o paciente vizinho, o Caçador de Livros descobre que o quarto está vazio. E está desta maneira há cerca de 5 dias.
Saindo do Hospital Psiquiátrico, o Caçador segue até o último endereço conhecido de Cecil - um pequeno estúdio alugado em um quarteirão imundo e infeliz de Whitechapel. O referido local, logo acima de uma lavanderia, cheirava a mofo e vinho barato e não passava de um cômodo grande com uma latrina, uma cama no canto e algumas mesas de desenho e estantes espalhadas. Aqui algumas evidências de trabalhos de falsificação de livros puderam ser encontradas, tais como fotos de originais acompanhadas de cópias em vários estados de finalização, esboços de artes e similares. Uma breve procurada nas estantes revela algumas obras de Edgar Allan Poe e, por incrível que pareça, um volume de “The Conqueror Worm and Other Tales” (O Verme Conquistador e Outros Contos em português) alocado na única estante que está posicionada em um canto do estúdio. Ao abrir o livreto, várias páginas de outro texto são encontradas em seu interior. Estas páginas soltas, protegidas de maneira simplória e com tom avermelhado, são folhas originais pertencentes ao volume desaparecido escrito e personalizado por Matthew Hopkins, o The Discovery of Witches.
De posse deste valioso documento, o grupo de Caçadores resolve se reunir, no meio da mesma noite, na Chapelhill Books. Estando em ambiente propício, todas as páginas cor de carmesim são avaliadas profissionalmente, revelando serem registros detalhados de julgamento de pessoas acusadas de bruxaria, durante os anos de caçada executados por Hopkins na região, durante a década de 1640. Ao que tudo indicava, estas páginas teriam sido redigidas à mão pelo próprio Caçador de Bruxas, contendo informações sobre os detalhes da acusação, nomes dos envolvidos e sentenças finais. Informações estas entremeadas com anotações mais dispersas do autor, como opiniões, pensamentos e, inclusive, esboços de desenhos.
O mergulho com afinco nestas palavras resultara em um detalhe curioso sobre alguns nomes dos condenados levou: quando esta informação fora cruzada com registros paroquiais da região, tais nomes não foram encontrados em sua totalidade.
Contudo, outro fato que chamou a atenção dos experiente Caçadores foram os desenhos e gravuras presentes no avermelhado documento. Desenhos estes que, apesar de estarem espalhados através das páginas, pareciam formar um padrão. Infelizmente, ao se aproximar se resolver este padrão, o Inferno tomou posse da Livraria.
Ao juntar todas as páginas que continham algum tipo de desenho, uma lufada de vento gélido assolou o interior da Livraria, apagando todas as fontes de iluminação presentes no recinto. A única luz que evitava que o cômodo fosse tomado pelo breu noturno era o brilho doentio da lua cheia, amarelada, que penetrava sorrateiramente pela claraboia do prédio, cujo vidro era acariciado gentilmente pela leve chuva desta noite ímpar. Brevemente após o apagão, o nosso grupo de Caçadores pode ouvir, de maneira clara e inteligível, a seguinte frase, entoada por um coro feminino temperado com um sotaque arcaico, emanando por entre as estantes empoeiradas e sem uma origem precisa:
“Ó amigo e companheiro da noite, tu que exultas com o ladrar dos cães e o sangue derramado, que vagas em meio às sombras das tumbas e desejas ardentemente o sangue, levando o terror aos mortais, Gorgo, Mormo, lua de mil faces, olha com carinho os nossos sacrifícios!”
Imediatamente após o término da agourenta frase, o feixe amarelado da luz lunar ganhou a companhia de outra fonte de iluminação no recinto. Parada, em frente ao grupo de estudiosos, havia uma forma humanoide, aparentemente feminina ao julgar pelo contorno do corpo que, vestido por trapos esvoaçantes, ganhava destaque através de um brilho avermelhado que surgia ao fundo. Aquele presença não-natural transmitia uma aura de pavor, fazendo com que os pelos nos corpos dos presentes se eriçassem. De forma trôpega, A Bruxa Carmesim dá um passo em direção ao grupo.

Continua na próxima postagem…